A partida do Bibota


Para quem gosta muito de futebol, como eu, estes tempos são de alegria.

Claro que não me desligo do hóquei, nem de outras modalidades que aprecio – que são quase todas – mas numa fase em que os jogos se sucedem em catadupa, não me sobra muito tempo para lá do Mundial.

Enquanto lia as novidades vindas de lá, tentando perceber como está a seleção nacional, já no meu pensamento chegava uma certeza: “Eles só vão querer falar da prova”.

Por aqui hoje é dia para um belo cozido à portuguesa para o almoço, que a Princesa já começou a preparar ontem.

Até aqui tudo bem, mas com a termómetro a descer, temos um desencontro de temperaturas, pois a Célia quer acender o recuperador de calor às três da tarde, todos os dias, já eu gostava que ele se mantivesse sossegado vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano.

Enquanto eu já estava a suar, só de pensar no calor que o fogareiro – como eu chamo ao recuperador – faz, um alerta do Esperto despertou-me para a nossa reunião matinal, agendada para daqui a cinco minutos.

Sentei-me em frente ao portátil e não precisei de esperar muito para eles chegarem.

“Bom dia Tio”, cumprimentaram-me os três.

“Bom dia juventude”.

“Tio, proponho que durante o Mundial de futebol seja esse o tema do fora da caixa”, avançou o OLHA.

“E se quisermos falar de outro assunto, não podemos?”, questionou a RODINHAS.

“Eu já sabia que vocês iam falar desse tema”, afirmei eu. “Estou de acordo com os dois. Podemos falar do Catar’22, mas se surgir outro tema interessante também podemos debatê-lo. Quem é que quer começar?”.

“Eu gostava de falar do jogo de Portugal”, explicou o ALÉU.

“Avança, então”.

“A nossa seleção dá-me cabo dos nervos e o Fernando Santos irrita-me. Todos concordamos que temos excelentes jogadores, que jogam nos melhores campeonatos, mas depois pensamos pequenino. Acho que nos falta ambição”.

“Concordo contigo, mas sabes que o Engenheiro é um treinador conservador, portanto não estejas à espera que ele mude aos 67 anos de idade”, explicou o OLHA.

“Também fiquei com a ideia que por vezes tivemos uns laivos de sobranceria e alguma desconcentração. Ou nervoso miudinho, sei lá”, exclamou a RODINHAS.

“Acho que vocês reuniram várias observações que resumem o que aconteceu dentro do campo. Acho que a nossa sorte é que o Fernando Santos, que é um católico assumido, levou a santinha no bolso para o banco”, ri-me eu com vontade.

“Já me tinha lembrado disso, mas não podemos estar sempre à espera que se repita a felicidade que tivemos no Europeu de 2016”, afirmou o ALÉU.

“Bem, vamos lá ver como corre o jogo com o Uruguai na 2ª feira. E sobre o resto das partidas?”, questionei eu.

“Duas grandes surpresas, uma maior do que a outra. A derrota da Argentina foi surpreendente, frente a uma seleção saudita que tem nove jogadores do mesmo clube. Já a seleção germânica confirmou o mau momento que atravessa há meses e ficou com os olhos em bico”, terminou o OLHA.

“Bela piada essa, um bocado esgotada, mas muitas vezes oportuna. Mais alguma consideração?”.

“Só dizer que até esta hora apenas o Catar está fora da prova, logo esses que têm a chave dos estádios”, gozou a RODINHAS.

“Espero bem que não os fechem. Está arrumada esta parte, vamos lá para o rinque. A minha proposta é acompanharmos um jogo em Espanha, pois jogam os dois primeiros, enquanto por cá, dois da Primeira e um da Segunda. Estão de acordo?”.

“Claro que sim. Regressamos depois de acabar o último jogo de hoje no Mundial, um apetecível duelo entre Argentina e México”, asseverou o OLHA.

“Combinado. Até logo juventude”.

“Até logo Tio”.

Que bem que já cheira o cozido. Vamos lá dar cabo dele, hoje com reforços.

Hoje no GPS vamos até à cidade dos estudantes, Coimbra, para conhecermos a Associação Académica local, coletividade centenária fundada em 1887.

Deitada em cima do Rio Mondego, a sua Universidade é uma das mais antigas da Europa e uma das maiores do nosso país, foi criada em 1290 pelo Rei D. Dinis.

Coimbra, que até 1255 foi a capital de Portugal, tem como vizinhos os municípios da Mealhada, Penacova, Vila Nova de Poiares, Miranda do Corvo, Condeixa-a-Nova, Montemor-o-Velho e Cantanhede.

A meio caminho entre Lisboa e Porto – mais perto da Invicta – quando lá chega, a dificuldade é escolher um local onde tomar uma boa refeição.

Como sugestão fica o Restaurante Zé Manel dos Ossos, bem perto da ponte de Santa Clara.

Talvez seja das maiores dificuldades quando temos a necessidade de falar sobre um qualquer assunto.

Fazê-lo depois de um extraordinário cozido à portuguesa ao almoço.

Fica barato, pois nem se janta, mas o corpo está em contradição, pois por um lado o estômago não quer mais nada lá dentro, mas o cérebro ingeria mais duas doses iguais às do almoço.

Enquanto tentava equilibrar estas duas necessidades, chegava uma notícia que já era esperada, o falecimento de Fernando Gomes, antigo internacional português, ele que em Portugal jogou no FC Porto e Sporting.

Quando procuramos, dentro do nosso horizonte de memória, de jogadores elegantes e bem-educados, Gomes está no lote dos melhores, mas a vida é assim, todos nós vamos partir um dia destes.

Enquanto digeria esta perda, chegava a altura da nossa reunião noturna, marcada pelo os acontecimentos no Mundial.

“Boa noite Tio”, chegaram eles de repente no ecrã.

“Boa noite juventude. Temos novidades?”.

“Sim, já temos uma seleção apurada para os oitavos de final, por coincidência os atuais detentores do título”, exclamou a RODINHAS.

“Miúda, calma, o fora da caixa ainda estava com tampa e já tu estavas efervescente. Pronto já percebi que a vossa atenção está muito asiática, mas sem stress”.

“Desculpa Tio, mas como foi a primeira a ser apurada fiquei elétrica”, riu-se ela, erguendo as mãos em sinal de perdão. 

“Vamos lá ao hóquei, começando pelo que se passou em Espanha, jogo que fui eu que acompanhei. O Barcelona está muito forte, venceu o Liceo, na Corunha, a meio da semana, sendo que hoje bateu o Reus, que era o segundo classificado, uma goleada carimbada com cinco golos portugueses, três do João e dois do Hélder. Quem pega na bola?”.

“Já estou eu na antecipação e com um grande jogo. Doze golos no Dragão, numa verdadeira montanha russa, onde as diferenças no marcador foram grandes durante a partida, mas no fim cada uma marcou meia dúzia, sendo que cada uma delas acha que perdeu dois pontos nesta jornada”, argumentou o ALÉU”.

“Boa análise. Vamos ao próximo”.

“Chegou a minha vez, eu que estive no Amável dos Santos Pereira, em Valado dos Frades. Foi um jogo com poucos golos, guarda-redes que não gostam de sofrer golos de bola parada, equilíbrio até ao fim com mais um empate neste dia de hoje, desta vez só com dois golos para cada lado”, concluiu a RODINHAS.

“Verdade, outro empate, um resultado pouco vulgar no hóquei”.

“Para terminar o dia de hoje chega a minha vez, com um jogo em Lisboa. O Benfica queria ficar isolado na frente, pois já sabia que o Barcelos tinha empatado, mas não teve vida fácil. O adversário minhoto trazia a lição bem estudada, chegou empatado ao intervalo, mas a segunda metade foi mais vermelha, conduzindo os encarnados à liderança isolada do campeonato”, terminou o OLHA.

“Muito bem pessoal, foi um dia bem comprido, com muita emoção e um belo almoço”, exclamei eu.

“Pois já ouvi dizer. Um dia destes vamos aí para degustar esse petisco”, prometeu a RODINHAS.

“Combinado. Até amanhã juventude”.

Portátil desligado, está na hora de recolher aos balneários.

No FORA DO BANCO de hoje viajamos até à Pérola do Atlântico para conhecermos mais um apaixonado pela modalidade.

Nome Completo: Tiago Manuel Vieira Freitas

Clube atual: Hóquei Clube da Madeira

Idade: 25 anos

Local de Nascimento: Funchal, Madeira

Prato preferido: Espetada madeirense

Melhor cidade para viver: Funchal

Livro que está na mesa de cabeceira: Clinical Anesthesiology

O filme que já viu mais do que uma vez: Fight Club

Jogou hóquei em patins? Se sim, em que clube(es): Sim, iniciei a minha formação em 2012 no Clube Desportivo de São Roque. Em 2015, ingressei no Hóquei Clube da Madeira, no escalão de Sub19 e em 2017, com a entrada na Faculdade de Medicina, mudei-me para Lisboa, para o Clube Atlético Campo de Ourique. Lá consegui uma subida da 3ª para a 2ª Divisão Nacional. Nas 2 épocas seguintes, militei na 3ª divisão nacional pela Associação de Patinagem Atlético Clube do Tojal (2018/19 e 2019/20). Por último, joguei durante 2 épocas na 3ª Divisão Nacional, ao serviço do Club Sport Marítimo (2020/21 e 2021/22)

Como/quando chegou a opção de ser treinador: Em 2013, o hóquei em patins madeirense não se encontrava nos seus melhores dias e o meu pai, em conjunto com alguns pais de colegas da minha equipa, fundaram o Hóquei Clube da Madeira, com o intuito de não deixar “morrer” esta modalidade na Região Autónoma da Madeira. Todos nós – filhos dos fundadores – na altura atletas do Clube Desportivo São Roque, fizemos parte desta aventura, ajudando a dar treinos e ensinando os miúdos mais novos. Nesta altura, ainda tinha 15 anos e foi aí que comecei a desenvolver um “gostinho especial” pelo papel de treinador! Depois o gosto pelo treino, pela modalidade e pelas crianças foi-me moldando e criando o treinador que sou hoje

Clubes/seleções que já treinou: Hóquei Clube da Madeira (2013-2017; 2021-2022). Seleção de Sub15 da Associação de Patinagem da Madeira no 44º Torneio Inter-Regiões (2022)

Mais fácil treinar equipas da formação ou seniores: Nunca tive oportunidade de treinar equipas seniores, mas não posso negar que adoro trabalhar na formação dos mais novos

Quanto tempo demora a preparar o próximo jogo da sua equipa: Uma semana.

Se pudesse, que regra alteraria no hóquei em patins: Apitar para a cobrança do penálti

Maior tristeza como treinador: Perder atletas

E, claro, a maior alegria: Ter o campo cheio de miúdos motivados e felizes a patinar, com um stick na mão

Para terminar, o que mais o irrita durante um jogo: Um atleta meu não dar, dentro de campo, tudo o que tem e o que não tem.

A SACADA deste sábado aconteceu na Marinha Grande, onde tivemos dezasseis golos na Embra, com o destaque para João Seixas (5) e Kiko Fernandes (6), que defenderam a baliza da equipa B do Benfica. 

Nem sempre acontece, mas vamos regressar à capital vidreira.

Gonçalo Domingues (SC Marinhense) marcou cinco golos esta tarde e leva O VELHO para casa.

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